7.12.15

Crônica: Guerra


São seis e meia da manhã. Me levanto com dificuldade, a idade me levou a força e sua morte me levou a vontade de viver. Passei 40 anos da minha vida aguentando, sendo forte por nosso filho que ele nunca conheceu, pois quando partiu ele ainda estava em meu ventre. Caminho até a cômoda e abro uma gaveta. Pego novamente a carta, a última carta que ele me escreveu.

Minha amada Louise,

Estou escrevendo esta carta antes mesmo de te contar que fui convocado para a guerra. São cinco e vinte da manhã, e você ainda dorme, mas eu não consegui dormir sabendo que irei para um campo de batalha. Nas poucas vezes em que cochilei, tive pesadelos sobre te perder, sobre te deixar sozinha. Se está lendo isto, foi por que eu parti. Se eu não morrer na guerra, te direi todo o conteúdo dessa carta quando chegar a estação de trem, onde você estará me esperando. Rezo por isso. 
Se o pior acontecer, seja forte. Estou olhando para você agora, gravando cada detalhe de seu rosto enquanto dorme. Seu cabelo está despenteado, ainda tem um pouco de maquiagem em seu rosto, e mesmo se você achar que está feia, esta é a visão mais linda que já tive. Tenho vontade de te beijar, mas tenho que terminar esta carta. 
Se eu partir, lembre-se de que meu ultimo pensamento será você. Você foi a minha primeira namorada, e desde o momento em que a vi, eu sentia que você seria minha. Minha esposa, minha amiga, a mãe dos meus filhos. Sinto em partir sem ter te dado um, mas se você se casar de novo e tiver filhos, eu entenderei. Eu a amo. Mais do que minha própria vida. E, se minha morte significa que os inimigos não invadam nosso país e que você fique a salvo, eu morrerei feliz por saber que você ainda está bem. Eu te amarei pra sempre, minha querida. Nunca se esqueça.  

Para sempre seu,
Phillip

Leio novamente essas palavras, como já havia feito tantas vezes. Pego sua foto e abraço contra meu peito, me deitando novamente como faço toda manhã. Olho novamente pela janela e vejo a neve que cai lá fora. Ele disse que voltaria antes da neve derreter, e a cada vez que acordei e vi a neve cair, tive esperanças, por um momento. Mas os meses se passaram, até que o comandante veio até a nossa casa. Antes mesmo de abrir a porta eu sabia o que ele iria dizer. Phillip estava morto. Ele havia morrido num ataque aéreo. Me entregaram a carta e os pertences que ele havia deixado na base. Eu não conseguia acreditar que o havia perdido. Agora, depois desses quarenta anos eu ainda choro pela morte dele, e tudo me lembra ele. Passei todo este tempo tentando me curar, sendo forte por nosso filho, mas agora ele já está grande e tem sua família. Tem seu amor, não precisa mais de mim. Posso partir.

Estou indo te encontrar, Phillip.

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