8.12.15

#1 Crônicas de Natal: Vicky Rios



Oe povo! Hoje é o dia de postar a primeira crônica desse projeto que comecei com algumas amigas, e para abrir a série, começo postando uma crônica da Vicky Rios, do blog Chuva e Chá. Confiram!



Corri para o o outro lado da ponte e coloquei a cabeça entre duas barras de cimento.
O barco estava passando bem de baixo dos meus pés, e eu só conseguia sentir como o chão tremia com o barulho da buzina do barco. Eu tinha certeza que o nome não era buzina... Mas mesmo assim eu sentia até meus ouvidos vibrarem com o barulho.
Fiquei sentada ali, vendo o barco que carregava vários trabalhadores, ficar pequenininho no horizonte.
Não tinha ninguém na ponte. Fazia um frio perturbador. Minhas luvas já não estavam ajudando muito pois meus dedos já estavam dormentes de frio.
Encarei meu redor procurando uma pedra pra jogar no rio, mas tudo que encontrei foi neve, neve e mais neve.

Peguei um atalho por entre os vilarejos. Uma pequena vila com casas rusticas e mansões caríssimas batia em meus olhos como fagulhas. Casas tão ricas são um mistério pra mim... Pra que uma casa de 20 cômodos, se você é um velho solitário como o senhor Fritz? Um homem amargo e sozinho que vivia na casa numero 35. Eu detestava ele. Era o tipo de senhor que furava as bolas das crianças mesmo que elas nem estivesse em seu passeio.

A minha casa ficava bem ao lado de um parque. Na verdade era só alguns brinquedos bobos que eu usava quando tinha 10 anos, mas a mania de envaidecer a cidade fez com que chamassem aquilo de parque.

Ao chegar em casa com a minha bicicleta Aaron estava bem a minha porta, sentado no meio fio com as mãos na cabeça. Usava um gorro com a estampa rosa e preta, bem parecido com o gorro que eu usava, porém bem mais grosso. Fios soltos caiam em seu rosto, e nas mãos era possivel ver luvas aparentemente bem mais quentes que as minhas. Ao lado dele tinha uma embalagem de macarrão instantâneo. Ele devia estar ali a um bom tempo.
 - Oi... - Eu disse e ele se assustou, nem me viu chegar de fininho. - O que ta fazendo?
 - Você não atendia minhas ligações... Eu deixei varias... Liguei pra sua casa e não havia ninguem lá... Ai vim até aqui... Você também não estava.
Isso me deixava com um misto de comoção, exitamento e raiva.
Porque ele tinha que ser sempre tão invasivo? Se eu não atendi é porque eu não podia atender.
 - Esqueci o telefone no quarto, e sai...
 - Saiu? Pra onde? Com quem?
 - Comigo mesma!
Peguei a bicicleta e passei por ele indo até a porta da garagem e destrancando-a.
 - Eu sou seu namorado. Você me devia pelo menos a explicação de dizer porque não me atendia!
 - Eu já disse... Eu estava sozinha... Fui andar um pouco no bosque, e fui ver o rio, só isso! Que coisa!
 - Melanie... Eu fico preocupado... Você sozinha... Por aí... O que as pessoas vão pensar?
Eu poderia ser atacada por um lobo. Eu podia ter sido mutilada por um assassino. Eu podia me perder no bosque e morrer de inanição, ou sede. Eu podia ter sido atropelada, e bem agora meu corpo estaria em destroços no meio da rodovia... Mas ele só ligava para o que as pessoas acham de mim.
 - Você ta falando serio? Por tipo... Não pode ser serio... Não pode.
 - Olha, você anda fugindo de mais da realidade... Não fala mais tanto comigo, mata aula pra ir pro rio... - ele começou a sussurrar, mesmo sabendo que só havia nós dois dentro da garagem, e mesmo que ela estivesse de porta aberta ninguem nos ouviria - os vizinhos pensarão que você está ficando louca, ou que pode estar indo a floresta com alguem mais...
Meu rosto esquentou em menos de segundos. Fechei o punho e pensei em avançar, em estapeá-lo, ou chuta-lo onde mais doi... Mas me contive.
De todas as coisas sem noção que alguem pode falar em um relacionamento que nunca deu certo, ele tinha que tentar me controlar mais.
 - Vai embora... por favor...
 - Eu n-não quis di-dizer isso... - começou a gaguejar enquanto eu forçava seu corpo para fora. Quando chegamos a ceu aberto ele pegou minhas mãos e acariciou-as. Eu só conseguia querer acabar aquele namoro bem ali.

Não quis mais ouvir.
Nunca fui o tipo de brigar, ou discutir sobre o relacionamento. Naquele momento eu so queria deitar na cama e dormir.

Mas é Natal. Todas as casas decoradas. Frio e neve. A loja da cidade ao lado lotada de pessoas morrendo lentamente congeladas esperando na fila para comprar algo barato e mixuruca para seus amados entes.
Eu não era fã do natal. Nunca fui na verdade. Só me concentro em fazer o maior numero de chá quente possivel, e não congelar em todas as minhas visitas recorrentes ao rio. É um bom plano.

A porta do andar de baixo fez barulho, e eu consegui escutar a minha mãe gritando que havia chegado.
Ela subiu as escadas de um modo rápido e estranho. Não do jeito lento e cansado de sempre.

 - Tenho noticias... - ela disse respirando fundo e estendendo dois pedaços de papel na minha frente. Peguei-os e respirei fundo também.
"Parabens, você acaba de ganhar uma viagem com tudo pago para Luketown. Feliz festas"
 - Eu ganhei a viagem! - ela disse alto e pavorosamente feliz.
 - O que isso significa?

Uma semana depois lá estava eu, em meio a uma neve traiçoeira. Já havia bastante gelo nos meus sapatos, e ele estava derretendo. O aquecedor do carro estava me ajudando muito, mas estava acabando com meus pulmões. Nunca fui fã de aquecedores.
Mamãe foi bem na frente, no dia anterior. Eu ainda tive que ir na ultima aula do ano e depois peguei minha caminhonete e minhas malas para a cidade que ficava a mais ou menos uns 400km de distancia. Isso dava um total de 5 horas de viagem. As ruas estavam limpas e sem muita neve. Muitos carros andavam em um ritmo extremamente lento, o que faria o tempo de trajeto umas duas vezes mais longo.

Liguei o som e fiquei encarando o carro da minha frente.
Estava tocando Open Road do Roo Panes. Fiquei feliz de ser uma musica bem Road Trip, mas naquele frio a unica coisa que eu não queria era musicas natalinas, então qualquer outra coisa já era maravilha.

A estrada ficou sobrecarregada de uma só vez.
Muitos motoristas pararam e eu fui obrigada a apertar o freio. Alguns caras saiam de seus carros furiosos e outros pareciam apenas curiosos.
Acho que foi um acidente. E pelo numero de ambulâncias, bombeiros e policiais, foi um acidente realmente preocupante. Virei o carro cuidadosamente e passei por um outro caminho, tentando tomar cuidado para não causar outro problema.
Quando olhei pra esquerda eu consegui ver outro carro parar na minha frente e fechar a minha passagem.
 - Porra! - foi a unica coisa que eu consegui dizer.
Desliguei o radio do carro, e abri a porta.
 - Você é louca? Tava na contramão! - ele disse quase gritando.
 - E você um estressadinho! Não ta vendo que ta tudo parado, cara? - meu sangue subiu tão rápido que quase me senti tonta e com calor.
Ele cruzou os braços e levantou as mãos. Parecia mais calmo.
 - Feliz natal pra você também! - ele disse e voltou ao carro.
Entrei no meu também, e vi ele tentando estacionar perto de um restaurante de estrada.
Era minha unica opção.
Todas as outras estradas estavam paradas por causa da neve, e aquela era a unica mais limpinha.
Tentei arredar meu carro mais para o acostamento e o tranquei. Peguei apenas a bolsa e um cobertor.
Me cobri com ele o mais rapido possivel.
Sai andando com aquela manta nas costas e consegui chegar com muita dificuldade até o restaurante. deu tempo de ver aquele cara pegando uma menina de mais ou menos uns 7 anos de dentro do carro, embrulhando-a no cobertor e a levando no colo. Ela estava dormindo. Era morena de cabelo cacheado, e usava uma touca de minion.
Ele entrou no restaurante e eu fui atrás. Esses lugares geralmente ficam aquecidos.

Me sentei na primeira mesa vazia que vi.
Uma moça gordinha e sorridente, usando batom vermelho, veio pegar meu pedido.
Batata frita. Refrigerante. Hamburguer de frango. Queijo extra.
ela anotou rápido e saiu andando como se o acidente logo ali nem tivesse acontecido.

O cara me olhou de novo e percebeu que não tinha mais mesas vazias, ele estava sentado no balcão com a menininha que já estava acordada, devorando uma porção de batata com queijo.
Ele bufou, provavelmente queria se sentar bem na mesa onde eu estava.

Ele era bonito. Não era tão velho quanto eu pensei que fosse. uns 25, eu diria. Tinha um cabelo cacheado igual o da menina. E seus olhos castanhos escuros eram bem parecidos com os dela.
Era dia 25 de dezembro, e eu não podia deixar que ele pensasse que sou uma pessima motorista. No natal todo mundo devia ser bom.
 - Hey! - eu disse e a menina puxou seu grande casaco preto para chamar atenção dele. Ela apontou pra mim e ele se virou pra minha direção.
 - Sim... - ele foi até educado, mas não parecia com paciência.
 - Quer se sentar aqui? Essas cadeiras são melhores.
A garota sorriu mostrando um de seus dentes faltando e correu até a minha direção.
 - Mariah! - ele disse um pouco alto. - Não saia correndo assim! Tem certeza? - ele perguntou segurando a mão da menina de um jeito forte.
 - Claro, sentem-se.
Meu pedido chegou e a menina me ajudou a comer.
Ela se referia a ele como Boo. Então eu não fazia ideia do seu nome.
 - Sou a Mel... Melanie - apertei sua mão e ele sorriu timido.
 - Alexander... Alex. Mas a Mariah me chama de Boo. Longa historia.
 - Vocês são de onde?
 - OflinnCity. Mas iamos passar o natal com meu pai. E você?
 - Calenshire... Vilarejo pequeno...
 - Uau... Um ovo.
 - Pois é... 18 anos vivendo em um lugar como aquele é algo digno de palmas.
 - Você tem dezoito? - ele parecia surpreso - parece bem mais nova.
 - E você?
 - 24.
 - Então parece bem mais velho.
Ele riu. Tinha covinhas. Lindas covinhas.
 - São as olheiras! - ele exclamou.
Debaixo dos olhos havia olheiras escuras que mostravam um rosto cansado, sem dormir a um tempo.
 - Eu costumo trabalhar de madrugada então... sabe como é...
 - Entendo... Você é stripper.
Ele riu de novo, só que dessa vez se esforçou para não rir.
 - Eu cobro bem baratinho pelo show. - eu ri.
 - Que bom, Porque quem não quer um belo show de nudez em pleno dia 25 de dezembro?
Ficamos rindo até percebemos que Mariah não estava entendendo nada então resolvemos parar.
 - Eu sou designe. Produzo capas de livros. - ele tomou um gole do café na mesa. - Eu gosto de trabalhar durante a madrugada porque é quando minha cabeça está mais criativa.
 - E você ganha livros de graça?
 - Algumas vezes. - ele bebeu de novo - alguns autores gostam quando seus livros são lidos antes de criarem uma capa. Ai eu leio alguns. Ou pergunto ao autor as coisas que ele mais gostou na historia, ou algo que ele ache especial.
 - Parecia ser legal. Você é o cara que tira da cabeça das pessoas que um livro não pode ser julgado pela capa.
 - Ah, mas vezes os autores são grandes idiotas em questão de beleza visual - ele deu uma risadinha - alguns pegam um projeto bonito e transformam em uma capa horrorosa. Ai fica aquela coisa terrível com meu nome.
 - Eles tem esse poder? Pensei que a editora fosse quem aprovava!
 - Algumas vezes as editoras deixam porque se trata de um autor figurão do mercado de livros.
Mas só de ganhar meu dinheirinho suado no final do mês eu já fico feliz.
 - Entendi...

Continuamos conversando por mais um tempo.
Alex estudou cinema por um tempo, depois trocou o curso porque sua mãe faleceu e quem estava cuidando de Mariah era ele. Ai estudar Design gráfico era bem mais fácil em função do tempo. Ele tinha um gato chamado Hamlet. Gostava de bandas indie pop, e tinha uma coleção enorme e desnecessária de filmes. Ele lia um livro por semana. Ficamos umas boas horas conversando e rindo de tudo. Ele parecia um cara legal, do tipo de cara que se fosse da minha cidade eu levaria até a ponte que cortava o rio. Eu realmente seria amiga desse cara.

 - Você não disse muito sobre você... Eu fiquei falando, falando, e falando... E você me pareceu misteriosa até agora. Posso saber pelo menos o seu signo? - ele sorriu.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa,  olhei pela janela e vi os carros começando a andar.
 - Oh, meu deus... Ainda são 10:47, da tempo de chegar... Olhe os carros! - eu disse e ele acordou Mariah que voltou a dormir em seu colo.
Me levantei, paguei minha conta e já estava saindo, quando Alex abriu a porta pra mim.
 - Então isso é um adeus... certo? - ele disse suspirando.
 - Sim... Foi um prazer conhece-lo... - eu disse e Alex suspirou de novo.Fui até o carro, abri a porta e me sentei no banco. Fiquei observando Alex prender o sinto da irmã no banco de tras. Ele deu a volta novamente a abriu a porta do carro.
Alexander fez sinal de continência e entrou.
 - Ai meu Deus... - eu sussurrei e abri a porta.
Eu queria correr até ele e pedir o seu telefone.
Mesmo sabendo que eu ainda tinha um namorado me esperando, eu não ligava, ia pedir o telefone daquele cara que eu tinha acabado de conhecer. Quando sai do carro ele já havia o ligado e já estava na estrada.
Bye Bye, Alexander... Bye bye.

Passei boa parte do caminho pensando nele. pensando na voz dele e imaginando se uma namorada estava o esperando em casa da mesma forma como o meu namorado estava.

Foram algumas horas até eu chegar a Luketown.
Era uma cidade linda e decorada. O hotel da cidade ficava bem no centro. Em frente a uma prefeitura e uma praça com uma fonte e arvores altas. Naquele momento eu entendi porque a minha mãe estava trabalhando tanto... Ela queria muito ganhar aquele premio. Ela queria muito passar o natal dentro de uma banheira de hidromassagem.

Fiquei hospedada no mesmo quarto que ela, mas o que me chamou atenção foi o quarto gigante. Ele era quase do tamanho da minha casa inteira.

Passou-se algumas horas em que eu estava no hotel, e minha mãe estava provavelmente aproveitando o SPA. Eu não conseguia tirar os olhos da biblioteca do lugar. As capas dos livros me lembraram o Alex, que possivelmente estava deitado debaixo do cobertor com alguma garota da cidade. Ele parecia o tipo de cara que as garotas rezariam para ter como namorado.

Passei as mãos por um livro Young Adult e o puxei. Quando eu o tirei da estante dava pra ver um garoto de cabelo cacheado do outro lado... Ele estava passando as mãos pelos livros.
Corri até o outro lado da estante e gritei:
 - Alex! - o garoto se virou pra mim e tomou um susto.
 - Desculpa...?
 - Ai, sinto muito... pensei que fosse outra pessoa.
Voltei de fininho... Não era o Alex... Não mesmo...

Esse tipo de coisa acontece em livros, não é mesmo? você conhece um cara por causa de um acidente. Vocês dois percebem que é melhor conversar. Ai esse cara te encanta e você só consegue pensar nele. E por mais incrível que pareça, ele está no mesmo hotel que você. Vocês dois se reencontram e se beijam apaixonadamente. Só que esse tipo de coisa só acontece nos filmes e livros.

Fui caminhando até a escada principal, que levava até os quartos.
Como eu pude pensar que isso poderia acontecer? Esse tipo de coisa só acontece na ficção. Eu nunca mais veria Alex nem sua irmã novamente. Respirei fundo e passei por uma grande arvore de natal que estava no centro do lobby. Um homem vestido de papai noel passou por mim com um saco vermelho enorme.
 - Ho, ho, ho... Feliz natal, mocinha! - ele disse com tom afetado e eu sorri de leve. - A senhorita não parece estar tendo um bom natal esse ano... Foi uma boa menina?
- Fui sim. - sorri tentando parecer mais feliz.
O homem tirou o saco das costas e tirou da lá de dentro uma caixinha rosa.
Eu peguei, agradeci e subi até o quarto.
Dentro da caixinha rosa havia um varinha com uma estrela de plastico na ponta.
Eu a segurei em frente ao espelho e disse:
 - Faça o meu príncipe encantado aparecer!
Minha mãe abriu a porta do quarto e começou a rir, disse que eu havia ficado louca.
Meu celular tocou na bolsa e eu a peguei, mas acabei deixando tudo cair de afobação.
Também não era Alexander. Como poderia ser? Era Aaron. Infelizemnte era Aaron.
 - Alô?
Enquanto eu tentava atender, juntava coisas de cima do carpete.
Um cartãozinho me chamou atenção.

Havia um cartão vermelho. Era listradinho e não estava na bolsa quando eu a arrumei.
 - Aaron.. Eu te ligo daqui a pouco, Okay?
Nem esperei resposta.
Larguei o telefone na cama e peguei o cartão.

"Alexander Lynch. Designer Grafico. E-mail: lynchalexnsm@email.com"
Quase pulei de felicidade.
Alexander devia ter colocado aquilo na minha bolsa enquanto eu pagava a minha conta.
Atrás havia algo escrito a mão.
"Meu numero é" e seu numero estava bem ali. na minha frente.
Sentei na cama sorrindo com o papel na mão. Aquilo sim era um bom natal.


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